tangos felinos

Eu sempre gostei muito de animais, de todos os tipos, mas fui, durante muitos anos, reticente quanto a ter qualquer tipo de contato íntimo com eles. Tivemos algumas cachorras em casa, sempre muito bem tratadas, mas elas, via de regra, ficavam no quintal, sendo veementemente repreendidas pelo meu pai assim que pusessem uma orelha para dentro de casa.

Comecei a conviver com gatos quando fui trabalhar na Bahia, com minha companheira. A paixão veio em alguns meses, depois de resgatarmos um filhote amarelo e branco, muito pequeno e carinhoso, que foi deixado em nossa porta. Pedrinho… Ele era um lorde, um caçador, e foi meu primeiro amor felino.

Quando voltei a São Paulo quis muito traze-lo, mas não o fiz. À época, dividia apartamento com uma menina que odiava bichos, e achei melhor não causar polêmica. A idéia de ter um filhote em casa começou a me rondar, com um misto de vontade e insegurança, pois eu tinha muitas dúvidas se eu saberia cuidar de mais alguma vidinha, já que nem da minha eu achava que podia.

Depois de um ano, nossa república se desfez. Fui morar sozinha numa kitchnete, e alguns problemas emocionais sérios que eu já apresentava há muito tempo, a depressão e o pânico, me atacaram de vez. Foram tempos muito difíceis, duro até de explicar. Um dia, li um artigo sobre os benefícios que o contato com animais podia trazer a pacientes com quadro depressivo, e isso me atiçou. Eu já pensava em adoção de um gatinho há um tempo, e, enquanto percorria alguns sites de ONGs e apadrinhamento de animais, me deparei com um filhote amarelo, muito fofo e  mirrado, que lembrava muito o Pedrinho.

Foi amor à primeira vista- o nome dele era Klaus, e, a despeito da miudeza, ele tinha uma audácia encantadora. Fiquei dias pensando nele, e fui à casa da Tatis para conhece-lo. Fiquei absolutamente derretida, e resolvi traze-lo para casa quando ele estivesse plenamente sadio. Gostei muito do tratamento que a Confraria me deu, pessoas doces, responsáveis e admiravelmente conscientes… e não digo isso apenas porque fiquei amiga de alguns integrantes do projeto depois… senti uma confiança incrível no processo de adoção, todas as dúvidas e inseguranças se acalmaram, e pude curtir todo o processo de maneira leve e gostosa.

Quando fui ver o Klaus, comentei que gostaria de adotar um casal (castrado, obviamente) pois eu passava pouco tempo em casa e acreditava que, se fossem dois, eles teriam menos problemas de adaptação. A Tatis comentou comigo que ela ia receber uma fêmeas super lindas e eu fiquei vidrada numa delas, a Trixie. Quando eu fui buscar o Klaus, a Trixie já tinha sido adotada, mas havia a irmãzinha dela, uma preta de olhos gigantes e muito carinhosa, no lar temporário.

Foi só eu chegar que eu avistei a figura dela, de rainha negra, muito folgada, dona de si, sentada no sofá, como se estivesse me esperando. Ela subiu no meu colo com uma confiança assutadora, como se disesse “e aí, vamos?”. Fomos. Desde o primeiro momento, Maddy, a quem chamei Yoda, circulava pela casa como se fosse dela, e manifestou uma semalhança bizarra comigo, a ponto de eu considera-la, até hoje, meu alter-ego animal. Daqueles “acasos” que a gente até duvida se são acasos mesmo… O Klaus demorou alguns meses para ficar plenamente adaptado e confiar em mim, mas, em pouco tempo, já reinava, com sua pose de lorde austríaco-punk da periferia.

Ao lado deles, vivi os piores momentos da minha doença. Houve várias noites em que eu pedia aos céus para morrer, porque não agüentava mais sofrer tanto; e, não obstante TUDO aquilo, os meus gatos nunca me abandonaram um segundo. Eu cheguei a passar 3 dias de cama, só chorando, sem comer nem tomar banho e os dois praticamente não saíram de perto de mim. Às vezes o Klaus, com a aura de espertalhão-carente dele, trazia um brinquedo e colocava ao meu lado… sem dúvida, eles foram uma das maiores causas da minha cura, pois foi com eles que comecei a superar a tristeza e as crises de pânico, e reencontrei muita alegria de viver em meio ao caos que reinava na minha vida.

Após um ano, estávamos muito bem adaptados, e eu, já em tratamento, não pensava em ter mais nenhum gato. Mas peguei o hábito de acompanhar a Confraria, pelo blog e pelo Orkut. Foi quando me envolvi profundamente com a história do Don, Don Draper. Ele vinha de um local com péssimas condições, resgatado pela Patrícia, e recém-operado de uma hérnia de diafragma, uma cirurgia à qual raramente se sobrevive, ainda mais sem seqüelas. Os olhos dele, de um azul penetrante, e o fato de ele não ter uma orelha, em razão de uma sarna que ele pegou nos tempos de rua, a meu ver, o transformavam numa versão felina de “Scarface”.

Contudo, eu namorei o Don em segredo durante MUITOS meses, sem nunca contar a ninguém sobre a minha platonice… até que um dia eu comecei a ficar angustiada, porque não era possível um gato daquele ficar tanto tempo à espera de um lar. Não fazia sentido que um ser humano que lesse os relatos detalhados que a Tatis e a Patrícia faziam sobre o temperamento especialíssimo do felino Gracie (como a família de lutadores de jiu jitsu) deixasse de adotar um gato DAQUELES pelo fato de ele não ter uma orelha.

Aquilo não me saía da cabeça, ao mesmo tempo em que eu tinha um preconceito imenso sobre adoção de adultos, sobretudo por temer que ele tivesse comportamentos desviantes da rotina da casa e muita dificuldade de se adaptar.

Enfim, uma noite, no MSN, confessei minha obsessão pelo Don à Tatis e falei que queria adota-lo. No dia seguinte, ela o trouxe até aqui. Inicialmente, eu confesso que fiquei muito frustrada, porque ele não saía de baixo da cama, e acabou semeando a discórdia entre Klaus e Yodinha, que eu jamais vira brigarem na vida. Os dois começaram a se agredir e a agredir o novato, a ponto de eu pensar diversas vezes em ligar pra Tatis e pedir pra ela levar o Don de volta, pois eu comecei a ficar com muita pena dele naquela situação.

Usei toda diplomacia felina que eu adquirira e todo jogo de cintura do mundo para tentar adapta-lo, e foi um sufoco. Em uma semana o Don e o Klaus já eram unha e carne, em um mês Yodinha passou a aceita-lo, mas eu, apesar de tentar muito, não via muitos avanços na nossa relação.

Ele era muito arisco. Tremia só de receber carinho. Contato físico, ele evitava penosamente, pois tinha muitos traumas antigos. Eu pegava os outros dois no colo, dormia com eles, e aos poucos me acostumei com a idéia de que o Don era mais reservado e “frio” com humanos. Nunca deixei de agrada-lo, elogia-lo e mima-lo, mas simplesmente achava que ele nunca fosse gostar de mim tanto quanto os outros.

Eis que, um dia, eu estava deitada na cama, e ele subiu no meu colo e desabou. Parecia que ele chorava por dentro, de emoção, agradecendo os cuidados, ele parecia um bebê desamparado, foi comovente ver a atitude de entrega e coragem que ele teve em buscar um lar de verdade, mesmo com o passado difícil que ele tinha. Depois disso, começou a dormir comigo e, aos poucos, foi se abrindo, começou a fazer graça, a deitar de barriga pra cima para a gente acariciar a pança dele, a passar entre as pernas enquanto estávamos na sala. Quando vinha gente em casa, ele costumava se esconder, mas, depois de um ano, começou a sair, a se exibir, e a se aproximar de algumas pessoas, depois de todas, depois começou a sair para o corredor quando eu abro a porta para as filhas do vizinho verem os gatos, ele, que, para mim, detestava crianças e tinha medo de pessoas…

A transição está se completando. Don é um gato lindo, saudável, amável, carinhoso, de personalidade forte e irresistível. Ele agora tenta fazer o que os outros sempre fizeram, escalar o sofá para dormir na parte de cima, bem perto de mim, quando estou lendo ou vendo filmes. É até engraçado, porque ele está gordo e cai para os lados, todo desajeitado… e eu nunca repreendo, só teço elogios.

Com os três, aprendi a amar. Mas o Don me ensinou algo inestimável, que dialoga intimamente com os resquícios da minha doença… é possível recomeçar. É possível caminhar, caminhar, caminhar e passar a amar sem medos. E TODA VEZ eu olho para ele, quando ele se farta de ração e vai brincar no arranhador ou quando ele me segue até o banheiro no meio da noite, quantas vezes eu levantar da cama para fazer xixi, eu me vejo ali, vejo que é possível eu me livrar do medo de que a minha doença volte e viver livre, e em paz. Hoje eu sou uma pessoa muito mais feliz, e agradeço diariamente as lições que aprendi com os meus gatos. Por isso, recomendo a todos que tenham vontade, condições e compromisso, que adotem. E que não adotem somente filhotes, que são fofos, engraçados, e mais fáceis de se gostar à primeira vista. Adotar adultos, apesar de mais delicado, pode ser tão ou mais gratificante. Eles tornam a nossa vida muito melhor e nos dão tanto, e coisas tão intensas e profundas, que eu me choco um pouco quando lembro que eles não podem falar.

Os trilhos.

Incontáveis foram as vezes em que olhei para os trilhos do metrô com uma forte indagação: dotada de curiosidade em demasia para uma simples espectadora, perguntava-me o que de fato aconteceria se eu tivesse coragem para pular.

Durante muitos anos senti-me absurda por ter aqueles pensamentos e tentava, a muito custo, fazer a mente se desviar do mau agouro; descobrir, tempos depois, que havia mais gente que compartilhava do meu sentimento tampouco foi um alento, no máximo um alívio momentâneo.

Detesto fatalismos, porque soam dramáticos em excesso, contudo foi a isso que cedi, e é importante repeti-lo: não via saída, não via solução. Ganhar consciência de que tornar a tristeza incessante parte do seu cotidiano é uma forma de enraizar o problema, buscar causas, revirar histórias de vida, florais de Bach, antidepressivos, acupuntura, psicanálise, espiritismo, passe de caboclo, erva de São João, tentei, literamente, de tudo. E não digo que fracassei; encaro tudo como um processo, embora doloroso demais para se avaliar sem (ainda?) sentir o sarcasmo da memória a sussurrar perto e aquecer a nuca.

Não tem uma vez em que penso na minha adolescência sem me lembrar “daquela sensação”; não há momento em que, ao rememorar os anos de graduação, eu me recorde dos momentos em que chorava no banho ou na sacada após as luzes da FFLCH e os pesados alto-falantes se apagarem.

A questão é aprendi a separar a dor da vida. Ou ver na dor apenas um pedaço da vida, não sei. Se estou ficando cada dia mais budista ou mais adepta de clichês à la Polyanna, e, se querem saber, foda-se, não me importa tanto assim ter uma resposta pra isso ou enunciar a mudança com precisão científica; achei que o dia em que eu olhasse para os trilhos e ansiasse, com alegria, por saber onde eles me levariam nunca chegaria.

Quando veio, foi com tamanha naturalidade que até me espantei; e, ao dar-me conta de que tive que me esforçar para lembrar da última vez em que realmente me senti mal, embora tenha sido há poucos meses, derramei lágrimas de gratidão.

Sei que às vezes reclamo demais, e questiono demais; minha mente é inquieta e não raro me coloca contra mim mesma. Mas, sem desacreditar nada disso, eu digo, sem medo: há saída, e eu venci. Lutas diárias também enfeitam a vida de presentes, e o meu, por ora, é dizer, com delicadeza e alegria, que sou uma pessoa feliz.

 

Erosão.

Palavras que calam

Palavras que velam

E abrem portas

E se revelam

Plenamente,

Acordadas

Suspiradas

Ganhas, sem serem vencidas

Pela chuva

Pelo vento

 

Não sei se há vida nas palavras

Ou se é o autor que nos grita

A sua ânsia, a sua calma

A sua paixão perdida

Esquecida?

Dilacerada

Encrudescida

Em palavras, em afagos

Em viés

Em cantorias

diques.

Quando chega a hora, a lagarta deixa para trás sua crisálida e parte, com asas, rumo ao desconhecido.

Metáforas lindas e poéticas de renovação no mundo animal não faltam; acho que não tenho talento o bastante para fazer disso um episódio narrativo. Só digo que não deixo de me intrigar, ainda mais pelo fato de sentir por esses seres minúsculos uma inveja do tamanho de um elefante.

Por que insisto tanto em deixar abertas as janelas de casas que se botam como se assombradas… onde só se ouvem ecos, sem haver pessoas dentro?

É, ainda sou besta de espernear.

Mais parva ainda de seguir perguntando: “por que caminhos segue o desconhecido?”.

Não sei se quero saber, na realidade toco um sonoro foda-se para quem tentar, em vão, responder.

Nem os mantras me preenchem, nem os castiçais cheios de teias, parafina gasta, morbidez me convencem da realidade, única, do imponderável; que tudo tem um fim a gente sabe, mas quando sente é o ringue todo gritando, e sua cara absorvendo o tremor do impacto.

Só que eu não sei mais gritar.

Eu não.

A vida me bate, me esmurra, mói os dedos no meu peito… e também me agracia, me surpreende, me sorri, me espreita, e eu não consigo esboçar uma porra de um gemido.

Já me perguntei se eu teria virado insensível, mas aí vem a hora de dormir, e é como se o Coringa virasse pra mim, com a boca cortada, e gargalhasse.

Se fosse assim, eu não sonharia nunca mais. Nem acordaria berrando as entranhas pra fora, veja só que coisa.

Acho que se fosse pra eu ser um animal, e não sei por que insisto nas correlações zoológicas, eu deveria ser um castor.

Pegando limo, lodo, pedra, pau, todos os lixos que encontra pela frente e construindo uma grande barreira pra sabe-se lá o que. (A vida, quem sabe?)

E as ondas batem. Aceleram, a maré vem, a água desfere golpes brutais contra a parede. E fico lá ouvindo tudo, sem saber o tamanho das ondas, e nem se faz sol ou frio onde o mar está. 

ode saudosa e sentimental

Quero livrar-nos de todo mau presságio

Da dor, dos vícios, de cada pensamento de ódio

Encostar-me no seu corpo

E respirar a paz

Na calmaria do teu colo.

Sambaqui

Ouve só
Trago na mente a lembrança da areia
Fim de tarde na Barra
Onde fincamos os pés e fizemos sonhar
Fui feliz, mas veja bem
Das sereias restou a vaga da onda
Que nossas marcas tragou
 
Não sou peixe nem tesouro
Não é mais meu o vento que sopra
E desnuda as encostas
E funde as águas, eclipsa o peito, os astros, as formas.
 
O que ficou é passado
Que a chuva tenta apagar
Mas o amor é só miragem
Das amplas paisagens
Que não se pode alcançar

queens and knights

Tantas reviravoltas, tantas batalhas, será mesmo necessário? E quando a necessidade vem de dentro, o que fazer com a urgência? Quero viver a urgência, em vez de dizê-la. Sem ter pressa, ou pular etapas! Tão difícil de equacionar que às vezes me perco… Não sei se acredito em destino. Não sei se acredito em promessas. Como viver o hoje sem certeza de acertar? Como materializar a incerteza? Podemos ter planos, metas, cálculos… abstrações. Sempre fui uma pessoa de muitas convicções; movida a certezas que não existem. E nunca vão existir, nem pra mim, nem pra ninguém. A impossibilidade de controlar a vida não é uma dádiva exclusivamente minha… é de todos, mas parece que, quando é com a gente, a coisa adquire um peso imenso! Estou cansada de idealizar e de cobrar coerência de tudo. Coerência, verdade, não há. E toda vez que me deparo com esse lembrete, piscando em luzes de neon, letras garrafais, sirenes e tudo o mais… me recordo de que ainda não elaborei uma resposta satisfatória ao dilema dos imponderáveis da existência. Que podiam ser objeto de um papo bem filosófico, mas me tocam, recorrentemente, a cada esquina… tudo isso muito concreto, concreto em demasia, concreto que arrepia, que morde, que chacoalha… e fico por uns minutos a sentir raiva, tudo negro, vermelho, rouge et noir… guerras internas sem vencedores, porque a guerra não é o caminho. A luta talvez sim, mas estou aprendendo a ver a luta como algo mais sutil; nem todo embate precisa ser de lanças e armas… no fundo, acho que preciso da sabedoria de um guerreiro que adormeceu no alto da montanha quando o resto do batalhão se foi.