
Digo ao mago (que é gente, em sua alma turva)
Que um bilhete nunca é só um bilhete
É magia, é vida, para além do desespero do que é ser humano
É dádiva, para além da vaidade dos homens
É sentimento, embora dilacerado.
Das magias não restam senão lembranças,
Palavras, murmúrios que seriam saudosos se não fossem miragem
Enterrados, para além de todas as montanhas e sinuosas geografias da memória.
(…)
É tempo. É hoje. Não reconheço mais em ti minha poesia derramada. Reconheço em mim a lembranças do que durante anos tentei resgatar de seus olhos cegos. Mergulho em mim, sem as máscaras e desafetos íntimos de outrora. Não aceno com as mãos em um porto de largas paisagens- se equívocos, muito mais meus do que qualquer ilusão que me destes. Liberto-me do tempo, das lamentações em prosa, das expectativas de cujos olhares não resta nada a não ser a poeira dos anos, o amarelo das folhas, o esboço do que não se viveu e não mais cabe. Por irrelevante que seja a notícia e mais indiferentes as minha palavras, não mais me calo diante dos meus monólogos interiores. Estou livre. Muito mais do que pudera conceber um dia, no auge dos meus temores adolescentes. E que assim seja, por todo o sempre, em sua dimensão mais incerta.
“O teu destino deveria ter passado nesse porto
Onde tudo se torna impessoal e livre
Onde tudo é divino como convém ao real”
(Sophia de Mello Breyner)
(Imagem em: http://i5.photobucket.com/albums/y172/silver_fork/pegadas_ba.jpg)
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