Estou há meia hora tentando escrever 4 parágrafos de 10 linhas cada sobre diferentes assuntos relacionados com o eixo temático “nacionalismo”.
Parece irônica a reação que tenho, na mente, no corpo, na alma.
Passei pelo menos um terço da minha graduação estudando a temática da identidade.
Cursei 3 disciplinas no departamento de História e 2 no departamento de Antropologia que versavam exclusivamente sobre essa temática. Com a palavra “identidade” no cerne das discussões, no título da ementa que recebíamos no primeiro dia de aula.
Identidade e poder, identidade e memória, identidade e raça, identidade e cultura, identidade e nacionalismo, identidade e violência, identidade e gênero, identidade e sexualidade.
Poderia falar horas e horas sobre tudo o que eu li, tudo o que eu aprendi, sobre o porquê de isso ter me interessado tanto, sobre a fascinação que o tema me causa… sobre a alegria íntima e a curiosidade que esse assunto me provoca, sobre o quanto ele está ligado à minha trajetória, à minha vida, à afirmação do que e de quem eu sou.
Mas por que não escrever?
Por que será que me dói tanto? Por que me sinto tão burra com uma caneta na mão, com uma folha de papel em branco diante dos meus olhos, pronta a ganhar vida, a ser preenchida, acariciada, tomada por pensamentos e palavras? Parece que todas as minhas palavras são inadequadas. Que qualquer opinião minha soará ridícula. Houve um tempo em que não me importaria que recebessem minhas linhas entre sorrisos maldosos, eu sabia escrever, eu escrevia sem pensar.
Hoje, minha visão é turva, meu pensamento fica turvo, atormentado.
E, por conseqüência, tudo o que eu escrevo fica anuviado. Lento. Oblíquo. Incoerente, inconciso, genérico demais, eu tenho um medo terrível, hediondo, neurótico de afirmar.
Eu tenho medo de dizer, de revelar, de ver, de enxergar.
Fiz do ensino meu ofício. Mesmo que o veja como algo temporário, nunca o fiz com desdém, sem dedicação nem sem prazer.
Passo parte dos meus dias dando vida às palavras dos outros. Dando palavras à boca dos outros, traçando linhas segurando as mãos dos outros.
Ensinei quase uma centena de pessoas a ler, a escrever e a falar uma língua estrangeira.
E minhas próprias linhas são ocas. Elas é que estão engatinhando, elas é que estão com vergonha de ser.
Cresci e guiei minha vida acadêmica com um único foco: ser pesquisadora e professora universitária. Desdenhei o mercado, as commodities, as debêntures, nunca me interessei em fazer estágio numa multinacional, nunca quis ser diplomata. Mas desde o início, entrar na biblioteca era um momento de extrema felicidade e desconforto.
Sentia-me ao mesmo tempo maravilhada e oprimida de olhar em volta… no entorno, pessoas tão brilhantes, com livros publicados, com títulos, algo que sempre sonhei em fazer- não pelos diplomas colados na parede ou pela extensão de páginas na Plataforma Lattes, mas por sempre acreditar que tinha algo relevante a dizer.
Caí em depressão, tive pânico. Nesse ínterim, consegui a oportunidade de desenvolver uma pesquisa com bolsa no departamento de Antropologia, disciplina pela qual fiquei absolutamente fascinada desde o primeiro dia em que vi um livro de Lévi Strauss na bolsa de uma ex-namorada de meu tio, aos 15 anos.
Fui a campo, aprendi coisas maravilhosas, mas a escrita do meu relatório final foi de lágrimas, soluços, desilusão, um dos temores mais profundos que já experimentei em toda a minha vida.
Senti-me obrigada a procurar outra alternativa de vida, pois aquela experiência me bloqueou completamente. Ficava me imaginando no mestrado, no doutorado, chorando, lutando para escrever a linha final da minha tese sem dor.
Geralmente a dificuldade maior na escrita, acadêmica, dissertativa, jornalística, é ter algo a dizer, e definir como.
Sempre li muito. Quando pequena, aprendi a ler sozinha, num dia de inverno pesado em Boston. Minha mãe sempre me contou histórias, por isso, lhe serei eternamente grata a vida toda. Eu tinha um gravadorzinho onde colocávamos fitas de criança. Ganhei um audiobook no Natal daquele ano, poucos dias antes de embarcar para os Estados Unidos com meus pais.
Eu não me dava por satisfeita em ouvir as histórias da boca dos outros, mesmo porque minha mãe só tinha tempo para ler para mim antes de eu dormir. Eu colocava a fita, e olhava as palavras. Quase retorcia as folhas, como se delas fosse sair alguma seiva da sabedoria. Era um livro do Doctor Seuss, aquele sobre uma meia listrada.
E um dia, eu estava pronunciando as palavras com o gravador desligado. Meu pai entrou no quarto, era um sábado, e gritou à minha mãe: “ela está lendo!”. E em outra língua, que não era o português que falávamos em casa. Ele pegou um jornal sobre a cama. Sessão de Ciência. Entregou-me a folha, e eu li, ali mesmo, um artigo de duas colunas sobre formigas gigantes que invadiam a cidade.
Fui para a escola já alfabetizada, durante um ano fui uma das únicas da sala que tinham leitura. Enchi a paciência de minha mãe, porque queria aprender também a escrever.
Lembro-me com saudades e alegria dos dias em que nos sentávamos a mesa, eu e minha irmã, cheia de canetinhas e lápis coloridos. Era hora de desenhar e escrever para o Brasil! Eu fazia corações e flores, e escrevia no centro, “vovó, te amo muito”, com minha letra tenebrosa que posteriormente me custaria anos de caligrafia.
Tinha uma amiga do maternal, a Línlya, com quem até hoje mantenho contato. Ela sempre gostou de colecionar postais, e tem até hoje guardados os cartões que eu mandava para ela dos Estados Unidos.
Sempre tive as melhores redações na escola. Ganhei alguns prêmios locais por literatura em prosa e poesia, na infância e adolescência. Nos períodos mais turbulentos e confusos da minha vida, mantive o hábito constante de escrever. O mundo ao meu entorno me parecia todo errado, então eu me dispus a criar o meu. Fazia exercícios constantes, em prosa, lírica, até letra de música cheguei a fazer.
Meu contato com o mundo exterior, que sempre me pareceu mais interessante do que a vida numa pacata e não menos opressora cidade do interior paulista, foi inaugurado pela Internet. Mandava emails extensos, espontâneos, íntimos, reveladores para alguns amigos de outras cidades, da capital, do mundo. Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo, Porto Alegre…
Publiquei um texto na contracapa de um livro de um amigo. Cheguei a ser colunista de um site voltado para o público adolescente durante cerca de 2 anos. Minha redação no vestibular da Unicamp foi escolhida entre as melhores quando fui treineira, o mesmo para a redação do ENEM em 2004.
Sinto que retrocedi uns mil anos. É como se dentro da minha cabeça reinasse a alegoria de Platão- e as sombras fossem o que projeto para fora, e, pelo desgosto que trazem, para dentro de mim mesma, em movimento reverso.
Hoje dei um passo modesto, porém, ao meu ver, relevante, transformando meu choro em uma reflexão sobre uma dificuldade que não é só minha, mas também de muitos colegas e amigos que têm medo de falar, medo de expressar a impotência temporária diante das pressões e das exigências de provas de sabedoria entre os humanos que brincam de deuses nas cátedras e editoras da vida.
Não busco apenas a exegese do processo que fez com que enrolasse em minhas mãos finas fitas de cetim que com o tempo se transformaram em pedra. Busco a libertação da vontade que há em mim, para além dos julgamentos dos outros e dos critérios objetivos que diferenciam a arte boa e os argumentos sábios do que não presta.
Acho que todo temor tem uma parcela considerável de vaidade.
Mas eu quero ser livre, não importam os louros ou deméritos, os julgamentos, as barreiras, os testes. Vícios, virtudes, ganhar ou perder o debate, não. Construir. Libertar-se. Transvalorar-se. Ir além.
“Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.” (João Guimarães Rosa)