Erosão.

Palavras que calam

Palavras que velam

E abrem portas

E se revelam

Plenamente,

Acordadas

Suspiradas

Ganhas, sem serem vencidas

Pela chuva

Pelo vento

 

Não sei se há vida nas palavras

Ou se é o autor que nos grita

A sua ânsia, a sua calma

A sua paixão perdida

Esquecida?

Dilacerada

Encrudescida

Em palavras, em afagos

Em viés

Em cantorias

diques.

Quando chega a hora, a lagarta deixa para trás sua crisálida e parte, com asas, rumo ao desconhecido.

Metáforas lindas e poéticas de renovação no mundo animal não faltam; acho que não tenho talento o bastante para fazer disso um episódio narrativo. Só digo que não deixo de me intrigar, ainda mais pelo fato de sentir por esses seres minúsculos uma inveja do tamanho de um elefante.

Por que insisto tanto em deixar abertas as janelas de casas que se botam como se assombradas… onde só se ouvem ecos, sem haver pessoas dentro?

É, ainda sou besta de espernear.

Mais parva ainda de seguir perguntando: “por que caminhos segue o desconhecido?”.

Não sei se quero saber, na realidade toco um sonoro foda-se para quem tentar, em vão, responder.

Nem os mantras me preenchem, nem os castiçais cheios de teias, parafina gasta, morbidez me convencem da realidade, única, do imponderável; que tudo tem um fim a gente sabe, mas quando sente é o ringue todo gritando, e sua cara absorvendo o tremor do impacto.

Só que eu não sei mais gritar.

Eu não.

A vida me bate, me esmurra, mói os dedos no meu peito… e também me agracia, me surpreende, me sorri, me espreita, e eu não consigo esboçar uma porra de um gemido.

Já me perguntei se eu teria virado insensível, mas aí vem a hora de dormir, e é como se o Coringa virasse pra mim, com a boca cortada, e gargalhasse.

Se fosse assim, eu não sonharia nunca mais. Nem acordaria berrando as entranhas pra fora, veja só que coisa.

Acho que se fosse pra eu ser um animal, e não sei por que insisto nas correlações zoológicas, eu deveria ser um castor.

Pegando limo, lodo, pedra, pau, todos os lixos que encontra pela frente e construindo uma grande barreira pra sabe-se lá o que. (A vida, quem sabe?)

E as ondas batem. Aceleram, a maré vem, a água desfere golpes brutais contra a parede. E fico lá ouvindo tudo, sem saber o tamanho das ondas, e nem se faz sol ou frio onde o mar está. 

ode saudosa e sentimental

Quero livrar-nos de todo mau presságio

Da dor, dos vícios, de cada pensamento de ódio

Encostar-me no seu corpo

E respirar a paz

Na calmaria do teu colo.

Sambaqui

Ouve só
Trago na mente a lembrança da areia
Fim de tarde na Barra
Onde fincamos os pés e fizemos sonhar
Fui feliz, mas veja bem
Das sereias restou a vaga da onda
Que nossas marcas tragou
 
Não sou peixe nem tesouro
Não é mais meu o vento que sopra
E desnuda as encostas
E funde as águas, eclipsa o peito, os astros, as formas.
 
O que ficou é passado
Que a chuva tenta apagar
Mas o amor é só miragem
Das amplas paisagens
Que não se pode alcançar

queens and knights

Tantas reviravoltas, tantas batalhas, será mesmo necessário? E quando a necessidade vem de dentro, o que fazer com a urgência? Quero viver a urgência, em vez de dizê-la. Sem ter pressa, ou pular etapas! Tão difícil de equacionar que às vezes me perco… Não sei se acredito em destino. Não sei se acredito em promessas. Como viver o hoje sem certeza de acertar? Como materializar a incerteza? Podemos ter planos, metas, cálculos… abstrações. Sempre fui uma pessoa de muitas convicções; movida a certezas que não existem. E nunca vão existir, nem pra mim, nem pra ninguém. A impossibilidade de controlar a vida não é uma dádiva exclusivamente minha… é de todos, mas parece que, quando é com a gente, a coisa adquire um peso imenso! Estou cansada de idealizar e de cobrar coerência de tudo. Coerência, verdade, não há. E toda vez que me deparo com esse lembrete, piscando em luzes de neon, letras garrafais, sirenes e tudo o mais… me recordo de que ainda não elaborei uma resposta satisfatória ao dilema dos imponderáveis da existência. Que podiam ser objeto de um papo bem filosófico, mas me tocam, recorrentemente, a cada esquina… tudo isso muito concreto, concreto em demasia, concreto que arrepia, que morde, que chacoalha… e fico por uns minutos a sentir raiva, tudo negro, vermelho, rouge et noir… guerras internas sem vencedores, porque a guerra não é o caminho. A luta talvez sim, mas estou aprendendo a ver a luta como algo mais sutil; nem todo embate precisa ser de lanças e armas… no fundo, acho que preciso da sabedoria de um guerreiro que adormeceu no alto da montanha quando o resto do batalhão se foi.

Em cena

Certezas que ofuscam os versos

Tristes, ressabiados

Que imprimo em mim- e ninguém mais

Segredo absoluto;

Palavras não bastam

Para calar o que há no fundo

As tramas, tecidos rotos

Luzes opacas

Texto empapado

Cenário caído

Platéia escura

Músicos ébrios

Aplauso mudo

Espetáculo onde o poder da crítica pesa mais

Que o brilho do ator

Pra que a poesia se o autor é incapaz se senti-la?

Sucesso de bilheteria

Estrelas brilham no vazio

E, nas cochias, ouve-se

O brado do indizível.

helena.

“quando é que isto acaba, se é que o fim vem um dia?”- era o que se perguntava, tamborilando na beira da xícara opaca, morna como o café requentado, insosso, resto do dia anterior. e os olhos davam voltas pelas paredes, fitavam o teto manchado que denunciava a passagem do tempo naquela sala escura, porém aconchegante, de um frio apartamento na região central.
era um quarto-sala-cozinha com banheiro envidraçado, típica construção da década de sessenta, cuja aura de sutil decadência o proprietário, uma bicha arrogante, de meia idade, buscara conservar.
de repente, tudo parecia inadequado à inquilina, senhora também já vivida, cinquenta e poucos anos, cabelos curtos grisalhos, óculos à ponta do nariz, bailando com a caneta por sobre as folhas amassadas de um diário sem razão de existir.
o que fora pra ser, o tempo de glória, de amplos acontecimentos, ficara para trás. restava, se muito, a memória, a lembrança do passado que podia recriar à imagem e semelhança de sua própria desgraça, elocubrando fatos sem nexo para preencher a tristeza do hoje.
seu nome era Helena, um dia bela como a mítica personagem de odisséias, outrora intimamente feliz como os guerreiros que, vitoriosos, retornam ao seio da casa, e miram a cidade vazia por cima dos planaltos, antes de mergulhar em noites de cortejo e de festa.
ainda podia sorrir, embora sem o calor que preenchia os corações dos estudantes e dava ânimo à letra redonda com que ornava o quadro negro no grupo primário. casara-se; tiver um filho que morreu ainda pequeno, afogado na piscina de uma amiga em Higienópolis; perdeu o pai ainda jovem, enviuvou, aposentou-se, cuidou de sua velha mãe, doente, até que desse adeus e ela também.
vivia com relativo conforto, uma televisão nova, trocara havia pouco os armários embutidos por um modelo mais moderno, reformara os azulejos do banheiro, exibira as benesses às amigas perfumadas num dos sagrados chás com crochê à última quinta-feira do mês.
costumava cobrir o espelho com lenços de seda. atendia a porta com a toalha enrolada na cabeça, tropeçava às vezes em sua pouca vaidade, mas ria das moças jovens do prédio, que, enxergando-lhe de perto, sugeriam que saísse aos bailes do Bixiga em busca de um novo companheiro.
“hoje em dia estão todos sozinhos, mas quem não está? negar a solidão não passa de um truque dos jovens que sonham com a eterna alegria… já passei da idade, quero viver; o que é a vida se não o cuidar das violetas que agonizam à sombra dos dias de garoa, o carinho incondicional para com as coisas que morrem?”.
tinha o suficiente, dançara e sorrira o bastante. uma existência módica, às vezes triste, mas, no geral, contemplativa. simples. discreta. sentia-se bem assim; se não fosse, haveira remédio? gostava de parecer assim, quase imperceptível, e entregar-se ao cotidiano como um ritual sagrado, de oferendas ao tempo, espírito que traga o homem e o engole em suas contradições.
não se recordava de seu nascimento; sua infância, a viu rolar num piscar, entre passeios de bonde e sorvetes na Líbero Badaró. branco, gritos de criança, perfumes dos velhos amigos, canções que ninguém escuta mais; olhou para a imagem de Nossa Senhora numa calma esplêndida, e o céu não veio, só o vazio.
numa manhã de fevereiro, a vizinha ao lado reparou nas luzes acesas. “a velha deve estar insone”. dias se seguiram, e a estranha luminária permaneceu acesa, incomodando os passantes com sua flurescência petulante. uma semana de telefonemas, e nada. teria viajado, ido conhecer as pirâmides, colher rosas no campo, visitar parentes em Itu?
as amigas e o cunhado, crédulos no inesperado, custaram a aparecer. chegaram com um terço e uma bíblia na mão. a porta foi arrombada por policiais irritados com o transtorno que lhes causaria um incidente daqueles em horário de plantão. levaram o corpo numa maca velha, pela escada, quando todos dormiam. quase não houve choro; as amigas, no fundo, temiam se mostrar frágeis, pois sabiam ser aquele seu destino também.
na tarde seguinte, o corredor estreito foi preenchido com alguns poucos objetos, enfileirados, divididos entre doações para caridade, para a Igreja, para os sobrinhos. trabalhavam em silêncio e com energia, varrendo os cacos e aumentando as pilhas; enviaram à funerária seu melhor vestido, os sapatos com que fora ao enterro da mãe, um relicário de prata com fotos de família.
trancaram à porta e devolveram as chaves à imobiliária, que, uma semana depois, locou o imóvel para um casal barulhento, exaltado nas brigas e no amor.
de lembrança, pegaram, cada uma, um vaso de violetas murchas, que irão regar todo dia, até que seu dia de Helena lhes chegue também.

“once upon a time I was falling in love, now I’m only falling apart; there’s nothing I can do, a total eclipse of the heart.”

abre caminho!

Diga a mãe que eu cheguei…
Cheguei. tô chegada
Esperei, bem esperado
Nessa minha caminhada
Sou água de cachoeira
Ninguém pode me amarrar
Piso firme na corrente,
que caminha para o mar
Em água de se perder
eu não me deixo levar
eu andei
Andei lá, andei lá, andei lá,
eu já sei
O caminho andei lá

À sombra das palavras.

Estou há meia hora tentando escrever 4 parágrafos de 10 linhas cada sobre diferentes assuntos relacionados com o eixo temático “nacionalismo”.

Parece irônica a reação que tenho, na mente, no corpo, na alma.

Passei pelo menos um terço da minha graduação estudando a temática da identidade.

Cursei 3 disciplinas no departamento de História e 2 no departamento de Antropologia que versavam exclusivamente sobre essa temática. Com a palavra “identidade” no cerne das discussões, no título da ementa que recebíamos no primeiro dia de aula.

Identidade e poder, identidade e memória, identidade e raça, identidade e cultura, identidade e nacionalismo, identidade e violência, identidade e gênero, identidade e sexualidade.

Poderia falar horas e horas sobre tudo o que eu li, tudo o que eu aprendi, sobre o porquê de isso ter me interessado tanto, sobre a fascinação que o tema me causa… sobre a alegria íntima e a curiosidade que esse assunto me provoca, sobre o quanto ele está ligado à minha trajetória, à minha vida, à afirmação do que e de quem eu sou.

Mas por que não escrever?

Por que será que me dói tanto? Por que me sinto tão burra com uma caneta na mão, com uma folha de papel em branco diante dos meus olhos, pronta a ganhar vida, a ser preenchida, acariciada, tomada por pensamentos e palavras? Parece que todas as minhas palavras são inadequadas. Que qualquer opinião minha soará ridícula. Houve um tempo em que não me importaria que recebessem minhas linhas entre sorrisos maldosos, eu sabia escrever, eu escrevia sem pensar.

Hoje, minha visão é turva, meu pensamento fica turvo, atormentado.

E, por conseqüência, tudo o que eu escrevo fica anuviado. Lento. Oblíquo. Incoerente, inconciso, genérico demais, eu tenho um medo terrível, hediondo, neurótico de afirmar.

Eu tenho medo de dizer, de revelar, de ver, de enxergar.

Fiz do ensino meu ofício. Mesmo que o veja como algo temporário, nunca o fiz com desdém, sem dedicação nem sem prazer.

Passo parte dos meus dias dando vida às palavras dos outros. Dando palavras à boca dos outros, traçando linhas segurando as mãos dos outros.

Ensinei quase uma centena de pessoas a ler, a escrever e a falar uma língua estrangeira.

E minhas próprias linhas são ocas. Elas é que estão engatinhando, elas é que estão com vergonha de ser.

Cresci e guiei minha vida acadêmica com um único foco: ser pesquisadora e professora universitária. Desdenhei o mercado, as commodities, as debêntures, nunca me interessei em fazer estágio numa multinacional, nunca quis ser diplomata. Mas desde o início, entrar na biblioteca era um momento de extrema felicidade e desconforto.

Sentia-me ao mesmo tempo maravilhada e oprimida de olhar em volta… no entorno, pessoas tão brilhantes, com livros publicados, com títulos, algo que sempre sonhei em fazer- não pelos diplomas colados na parede ou pela extensão de páginas na Plataforma Lattes, mas por sempre acreditar que tinha algo relevante a dizer.

Caí em depressão, tive pânico. Nesse ínterim, consegui a oportunidade de desenvolver uma pesquisa com bolsa no departamento de Antropologia, disciplina pela qual fiquei absolutamente fascinada desde o primeiro dia em que vi um livro de Lévi Strauss na bolsa de uma ex-namorada de meu tio, aos 15 anos.

Fui a campo, aprendi coisas maravilhosas, mas a escrita do meu relatório final foi de lágrimas, soluços, desilusão, um dos temores mais profundos que já experimentei em toda a minha vida.

Senti-me obrigada a procurar outra alternativa de vida, pois aquela experiência me bloqueou completamente. Ficava me imaginando no mestrado, no doutorado, chorando, lutando para escrever a linha final da minha tese sem dor.

Geralmente a dificuldade maior na escrita, acadêmica, dissertativa, jornalística, é ter algo a dizer, e definir como.

Sempre li muito. Quando pequena, aprendi a ler sozinha, num dia de inverno pesado em Boston. Minha mãe sempre me contou histórias, por isso, lhe serei eternamente grata a vida toda. Eu tinha um gravadorzinho onde colocávamos fitas de criança. Ganhei um audiobook no Natal daquele ano, poucos dias antes de embarcar para os Estados Unidos com meus pais.

Eu não me dava por satisfeita em ouvir as histórias da boca dos outros, mesmo porque minha mãe só tinha tempo para ler para mim antes de eu dormir. Eu colocava a fita, e olhava as palavras. Quase retorcia as folhas, como se delas fosse sair alguma seiva da sabedoria. Era um livro do Doctor Seuss, aquele sobre uma meia listrada.

E um dia, eu estava pronunciando as palavras com o gravador desligado. Meu pai entrou no quarto, era um sábado, e gritou à minha mãe: “ela está lendo!”. E em outra língua, que não era o português que falávamos em casa. Ele pegou um jornal sobre a cama. Sessão de Ciência. Entregou-me a folha, e eu li, ali mesmo, um artigo de duas colunas sobre formigas gigantes que invadiam a cidade.

Fui para a escola já alfabetizada, durante um ano fui uma das únicas da sala que tinham leitura. Enchi a paciência de minha mãe, porque queria aprender também a escrever.

Lembro-me com saudades e alegria dos dias em que nos sentávamos a mesa, eu e minha irmã, cheia de canetinhas e lápis coloridos. Era hora de desenhar e escrever para o Brasil! Eu fazia corações e flores, e escrevia no centro, “vovó, te amo muito”, com minha letra tenebrosa que posteriormente me custaria anos de caligrafia.

Tinha uma amiga do maternal, a Línlya, com quem até hoje mantenho contato. Ela sempre gostou de colecionar postais, e tem até hoje guardados os cartões que eu mandava para ela dos Estados Unidos.

Sempre tive as melhores redações na escola. Ganhei alguns prêmios locais por literatura em prosa e poesia, na infância e adolescência. Nos períodos mais turbulentos e confusos da minha vida, mantive o hábito constante de escrever. O mundo ao meu entorno me parecia todo errado, então eu me dispus a criar o meu. Fazia exercícios constantes, em prosa, lírica, até letra de música cheguei a fazer.

Meu contato com o mundo exterior, que sempre me pareceu mais interessante do que a vida numa pacata e não menos opressora cidade do interior paulista, foi inaugurado pela Internet. Mandava emails extensos, espontâneos, íntimos, reveladores para alguns amigos de outras cidades, da capital, do mundo. Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo, Porto Alegre…

Publiquei um texto na contracapa de um livro de um amigo. Cheguei a ser colunista de um site voltado para o público adolescente durante cerca de 2 anos. Minha redação no vestibular da Unicamp foi escolhida entre as melhores quando fui treineira, o mesmo para a redação do ENEM em 2004.

Sinto que retrocedi uns mil anos. É como se dentro da minha cabeça reinasse a alegoria de Platão- e as sombras fossem o que projeto para fora, e, pelo desgosto que trazem, para dentro de mim mesma, em movimento reverso.

Hoje dei um passo modesto, porém, ao meu ver, relevante, transformando meu choro em uma reflexão sobre uma dificuldade que não é só minha, mas também de muitos colegas e amigos que têm medo de falar, medo de expressar a impotência temporária diante das pressões e das exigências de provas de sabedoria entre os humanos que brincam de deuses nas cátedras e editoras da vida.

Não busco apenas a exegese do processo que fez com que enrolasse em minhas mãos finas fitas de cetim que com o tempo se transformaram em pedra. Busco a libertação da vontade que há em mim, para além dos julgamentos dos outros e dos critérios objetivos que diferenciam a arte boa e os argumentos sábios do que não presta.

Acho que todo temor tem uma parcela considerável de vaidade.

Mas eu quero ser livre, não importam os louros ou deméritos, os julgamentos, as barreiras, os testes. Vícios, virtudes, ganhar ou perder o debate, não. Construir. Libertar-se. Transvalorar-se. Ir além.

 

“Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.” (João Guimarães Rosa)

shine!

“Remember when you were young, you shone like the sun.
Shine on you crazy diamond.
Now there’s a look in your eyes, like black holes in the sky.
Shine on you crazy diamond.
You were caught on the crossfire of childhood and stardom,
blown on the steel breeze.
Come on you target for faraway laughter,
come on you stranger, you legend, you martyr, and shine!
You reached for the secret too soon, you cried for the moon.
Shine on you crazy diamond.
Threatened by shadows at night, and exposed in the light.
Shine on you crazy diamond.
Well you wore out your welcome with random precision,
rode on the steel breeze.
Come on you raver, you seer of visions,
come on you painter, you piper, you prisoner, and shine!”